Eu tive que refazer tudo de novo

24 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

E um texto que começava com a palavra quatro, de quatro mechas, de alguma novidade, começa com justificativas em seis sentidos. Um mimo que simplesmente se apresentava, por eu ter contado errado, teve que ser totalmente reescrito, repensado, reelaborado. Bom mesmo foi perceber esse olhar inquieto, que quase intima – e prende –, quase surpreso pelo que era ou poderia ser uma surpresa. É inusitada a forma como fico à vontade perto de você. Te olhando curioso. E isso estava já no primeiro texto. É pretexto para acariciar a quem presumo merecer.

Lume verde, olhos que percebo e cedo. Memória que faz sorrir assim. Glória de quem difere pouco seis de quatro, mas vamos lá. Inusitada forma de se pentear, que faz inusitada a minha forma única de admirar você. Ainda que despretensioso, almoçar é um desejo que tenho, apenas pela boa companhia que esse par de carícias verdes traz. Poderia estar falando de outras coisas, mas gosto da palavra seis. Gosto de ser gentil. Gosto de quem gosta de gentileza. Acredito que seu sorriso é presumivelmente uma proeza, e daquelas que apenas o conto de fadas traz. Ou um dia-a-dia como os outros. Não há muita diferença. Há presença e ausência. Prêmio e pena que a realidade traz.

Novidades, constatações, e estamos juntos. De alguma forma ligados, para fazer de qualquer coisa um motivo para uma boa risadinha. Ainda que emaranhado em seis mechas de cabelos, sinto-me livre, solto e agraciado por estar preso em seis cuidados diários. No mesmo número que me fez reescrever essa breve prosa de cuidado malcriado. Um pequeno abraço acanhado de quem sente-se pouco para pedir mais. Um sorriso já me basta. Esteja por perto, pois de perto, é mais fácil olhar você.

Vulgar

19 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Não ler. Não escrever. Não falar. Não comprometer. Não ligar. Não retornar. Não mencionar. Não lembrar. Não beber. Não comer. Não dormir. Não fumar. Não respirar. Não juntar. Não separar. Não saudar. Não despedir. Não contratar. Não procurar. Não manifestar. Não preconizar. Não reunir. Não cozer. Não costurar. Não abafar. Não alardear. Não comutar. Não relacionar. Não produzir. Não valorizar. Não julgar. Não ajuizar. Não discutir. Não dividir. Não menosprezar. Não trocar.

Ler. Escrever. Falar. Comprometer. Ligar. Retornar. Mencionar. Lembrar. Beber. Comer. Dormir. Fumar. Respirar. Juntar. Separar. Saudar. Despedir. Contratar. Procurar. Manifestar. Preconizar. Reunir. Cozer. Costurar. Abafar. Alardear. Comutar. Relacionar. Produzir. Valorizar. Julgar. Ajuizar. Discutir. Dividir. Menosprezar. Trocar.

Não convidando, chamando e concluindo. Não aceitando, desdenhando e presumindo. Não persistindo, comparando e esvaindo. Não esperando, declarando e confundindo. Não acompanhando, respeitando e conduzindo. Não beijando, morrendo e sumindo. Não aparecendo, contradizendo e fluindo. Não entendendo, elocubrando e insistindo. Posturas que podem vulgarizar qualquer boa intenção. Intenções que podem vulgarizar qualquer boa ação. Seja noite, tarde, manhã ou madrugada, vulgar é não tentar.

Presunçoso

19 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Eu presumo que nem tudo seja realmente perfeito. Ainda falta muito para confirmar minha presunção. Presumo, de antemão, que todos podem realmente ser felizes, mesmo que a felicidade de alguns esteja em coisas improváveis. Tenho por bem, inclusive, presumir que outras palavras sejam tão benéficas quanto as palavras de sempre e para sempre proferidas. Aquele que de si presume o melhor, tem o poder de fazê-lo pelos outros também e, assim, livrar-se de todo peso, carência ou rancor.

Eu resumo uma história longa em poucas linhas, por presumir a crueldade de certas palavras e a inaptidão de alguns em perder alguns minutos com leitura de internet. Eu prolongo conversas fúteis também porque presumo que esses momentos são únicos, e que a liberdade de sair está no outro. Consumo livros, me alimentando de experiências diversas de outrem. Ao contrário do meu amigo Foucautliano, presumo ser possível pensar a ignorância, ainda que me faltem argumentos para refutá-lo. Saindo da abstração, na pele, o improvável presunçosamente se justifica. Ele talvez entenda.

E presumo ser possível sofrer apenas pela opção. Optando por perecer, cada um vira refém de um sorriso, ao invés de cúmplice de vários. Cada um presume sua realidade em apenas um outrem, ao invés de colar pedaços de alegria divididos em uma multiplicidade de pessoas acessíveis. Todos tem o direito de presumir serem reais, ainda que vivam num mundo para além da lua e do pensado. Presunçoso de mim mesmo, sorrio desgraças e choro alegrias, apenas por presumir que a realidade desse instante é inconfundivelmente contraditória. Talvez nunca possa comprovar minha dedução.

Desmazelado

18 de agosto de 2011 § 1 comentário

Todas as mazelas podem ser aceitáveis, sobretudo quando vindas de você ou acompanhadas de um bom cheddar. Tirar as cebolas do seu lanche, vira apenas uma desculpa pra também dividir gulosamente o seu almoço. Lamber os dedos ainda sujos de queijo viram mais uma forma de carícia minha pra você. E mesmo seu passado enlameado, para mim, parecerá um litoral ensolarado. Quiçá, ignore o meu também.

Nos abraços de todo dia, também o meu mau-jeito de estar sempre por perto, parecendo um polvo com todos os seus braços. No chamar-te, das horas em que foges, minha maneira de ser insanamente descuidado com os demais. Ademais, apenas um formato nada convencional de ser aquele que convence a si mesmo de que não foi nada demais. E todas as carências podem se fazer suportáveis, quando, de você forem fraquezas ou vierem acompanhadas de cigarros. Câncer de um pequeno paciente de seus remédios sempre fortes.

Todos os conselhos, assim, ficam reprováveis, se vierem contra sua presença ou estiverem misturados com ciúmes. Quebrando a cara, posso perseguir a toda hora meu intento sem a menor preocupação com insucessos. Gratuidade também é uma forma de egoísmo. E, com barba mal-feita, roupa velha e cabelos bagunçados, posso levar meus dias e noites como quem tira cebola do cheddar: sem nenhum compromisso definitivo ou interesse, mas extremamente envolvido naquele objetivo pequeno de todo dia.

A

18 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Um som com todas as significações de uma letra só. Ás vezes, uma letra com todas as caracterizações de um som que muda, e, quando muda, muda só na entonação. Intenção de quem entona. Refrescância, sede, tristeza, medo, dor, decepção, raiva, maluquice, besteirice, susto, fascinação. Paradeiro e ação. Uma só voz para um só e grande coração de muitos ouvidos. Dois pra um, um pra dois; voz e ouvidos, boca e sensação. Saudação? Isso, talvez não.

Som de signo sem horóscopo. Brincando de delirar no que é mais fácil. Na simplicidade de uma coca gelada, de uma cerveja guardada do domingo em plena quarta ou de um bom chá, no frio, de madrugada. Pretensão de vogal pelada, com um adendo pra montar aspiração. Falta de ar. Excesso de respiração. Pudica sede de groselha, de tequila ou de atração. Ah! Adendado, adido, somado, diminuído pela presença desnecessária de consoante. Vogal em si é tudo. Vogal de si diz tudo.

Turbulência de mais de uma página de vocábulos exatamente iguais. Artigo, preposição, substantivo. Acentuado, maltratado e aturdido. A é A. E o princípio lógico, apenas pra descrever, quer me fazer pensar que A não é B. Isso nem me passou pela cabeça. Além de todos os sentidos que tem, porque negar a presença de alguém? Ser a si é mais que não ser outro algo. A doce falta de compreensão no que vocalizo nesse instante, é a ignorância do princípio de identidade. Pensar a ingorância, ignorando, assim, o pensado. Agradecimento logo no princípio dos estudos dessa língua Caraíba. A voz saindo pela boca, para tocar corações passando por ouvidos. Apenas vogal.

Quando digo

17 de agosto de 2011 § 1 comentário

Quando digo que te amo, quero que entenda que, independentemente do que você faça, serei eu uma rocha onde possa se apoiar. Independentemente das suas ações repulsivas, te quererei por perto, serei um porto. Quando, mais tarde, te digo que tenho saudades, é porque eu sofro feliz, diariamente a sua ausência. E feliz permaneço porque meu sofrimento vale a pena. Sofrendo caminho, porque minha expiação é a mais pura verdade.

Quando digo que te cuido, é porque não consigo fazer outra coisa além de acariciar você com meu olhar, meus beijos, meus abraços e meu afeto. E todas as outras formas de relação tornam-se menores do que essa, porque nessa intensidade que te dedico, mais uma vez está a verdade que tanto procurei em minha infância. Quando eu digo que já volto, é porque não consigo presumir nenhum movimento que me afaste de você completamente. De idas e voltas vou percebendo que o destino e a origem são, para mim, um mesmo lugar: seu lado.

Quando um dia, quem sabe, disser adeus, será a minha única e a mais verdadeira mentira. Será por um sentimento de fraqueza, de miudeza ou de loucura. Será meu tormento, ainda que tenha eu mesmo escolhido. E, quando me der conta, pode ser que o jardim tenha se acabado, a luz do sol tenha se apagado, ou tenha havido a previsão apocalíptica. Quando, enfim, em outra vida te encontrar, com o olhar direi que, quando digo que te amo, é para que saiba que qualquer sofrimento valeria, só para receber mais uma vez o seu abraço. Até a chaga que causa o seu silêncio me parece suportável.

Vezes

17 de agosto de 2011 § 1 comentário

Ás vezes pago cervejas para pessoas estranhas. Depois, elas tornam-se amigas, aí bebemos como velhos conhecidos. No bar também nascem amizades. Ás vezes, converso com pessoas ao meu lado no ônibus. Em algumas frases, sonhos e espectativas são revelados. Tornamo-nos, então cúmplices de alguma pequena farsa de tempos passados. Por vezes, mesmo não querendo, conto mentirinhas a conhecidos e declaro minhas verdades a quem não faz parte do meu convívio. As relações trocam de lugar, e a intimidade com desconhecidos talvez pareça mais fácil.

Ás vezes, me contradigo, realizando o que digo ao contrário. E, na confusão de tentar encontrar a realidade, termino por não fazer mais do que podia. São vezes em que percebo que não sou um super-homem, mas apenas um mortal que precisa até de um soninho de vez em quando. A isso dá-se o nome de realidade. O impacto é fulminante. As vezes em que divido, também multiplico. Coisas que só uma aritmética contraditória faz. Fica mais fácil entender conta de boteco, rateio de cartão de crédito de balada, e fatura de grupo de amigos quando a saideira nunca chega.

Ás vezes dá vontade de beber sozinho. Essa vontade passa assim que qualquer conhecido com o mínimo de inteligência faça contato. Vira vontade de beber junto, e a mesa fica cheia, nem que seja de desconhecidos. Ás vezes, por fim, também recebo cervejas, confissões e gracejos de pessoas estranhas. Não tendo por prática ser ingrato, aceito, oferecendo cigarros. Na negativa do convite, batemos um bom papo que talvez me esqueça dali a alguns minutos. Ás vezes dá vontade mesmo é de não sair da bohemia.

Onde estou?

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