Olhando devagar

28 de março de 2011 § 2 Comentários

Queria ter tempo para, olhando devagar, tentar perceber algum defeito em seu semblante. Desde o róseo de sua face envergonhada até a voz falhada de quem não sabe o que fazer, ainda não pude ver nenhum. O tempo talvez fizesse-me ver alguma falha, por menor que seja, ainda assim, saberia estar diante da mais perfeta falta de simetria. A mais ideal realidade. Sonho em quase sensível crueldade. A mais contraditória sensação de poder ter a certeza da sua verdade, além da minha.

Ao olhar pro lado, em seu emaranhado de cabelos que imagino despertando, me perderia. E, em roupa velha de faxina semanal, perceberia a poesia que só você, meu modelo de beleza e fantasia tem. Quantas novidades faria em meus dias só pra te contar à noite. E, igualmente devagar, estenderia cada história, na espectativa de que prestasse a menor atenção e até se alegrasse com meu mau-humor habitual de neurastênico a todo tempo posto à prova.

Do mesmo jeito que devagar levantaria sua mão, te conduzindo devagarinho em direção aos mais bonitos sonhos. Rumo à mais simples conquista. Devagar e sorrindo ao longe. Como se faz com as pequenas criancinhas, que levamos lentamente até uma surpresa boba e fantástica, como um brinquedo novo ou gelatina de domingo. E, enquanto dá voltas no parque, você seria a manifestação maior das minhas melhores e mais bonitas sensasões. Uma daquelas que é bom viver devagarinho.

Inércia

28 de março de 2011 § Deixe um comentário

Se não me queria junto, não chegasse perto. Se não era pra explicar todo dia de manhã, a rotina do dia anterior, porque acordar ao meu lado? Tomasse então um banho breve durante meu sono e saísse sem maiores cuidados, eu até entenderia, gostaria, aplaudiria. Se não era pra querer as mesmas coisas, pra sentir os mesmos medos, fizesse como fazem as vagabundas e cobrasse – eu te pagaria bem. Pelo menos meus dias seriam mais sacanas e minhas horas seriam mais vazias dessa espera sacana de uma sábia falastrona.

Assim, assim, me fizestes de idiota e nem me arrependo disso. Tenho mesmo é pena da sua nobre sacanagem. Pena da sua desgraçada idéia do que seja amor ou história. Pena do torpor causado e das sofridas penas de sua estúpida maneira de viver um digno penar. Capacidade crua de ser empobrecida mortal de cara branca e sem vida. Domínio total da anti-historiedade que causa o pior das juventudes e provoca os menores sentimentos e as mais torpes sensações possíveis.

Vez ou outra posso me lembrar de breves sorrisos. Posso até me alegrar das promessinhas com voz de criança, feitas antes ou depois de algum amor feito ou por fazer. Se não podia mesmo ser sincera, foi bom ter sido uma boa mentirosa. De alguma maneira, aprendi a ser mais eu, mais meu, mais só. Acordo todo dia de manhã com minha rotina, como quem troca de cueca, ás vezes, até com uma nova. E, ainda que pareça papagaio, sou mais forte do que um dia imaginava. Pule, corra, chore e até morra, mas não repita os mesmos erros, ou fará outros terem pena.

Aprendendo a viver

27 de março de 2011 § 1 comentário

Como aprendem os passarinhos a voar. Como águias que se jogam do alto de um penhasco e aprendem, na abertura dos seus olhos e na energia do vento nas suas penas, quando ainda em queda livre, batem asas, desafiando a natureza, deixando que ela seja novidade. Do mesmo jeito que, em dia de novos cuidados, aprendo a espreitar seu sorriso em meio às lembranças de dias vincendos e vindouros. Viver de nossas brincadeiras, nossos termos, nossa linguagem.

Daquela maneira só minha de me fazer escrevedor e me lançar em direção ao desconhecido. Realizando caraibagem desde o contato breve que tenho com sua voz doce, até a dor-alegria da saudade que você provoca estando longe, aprendo. Campanhinha da companhia de patinação de plenas carícias sutis de conforto. Só você mesmo pra ensinar.

A viver, vou aprendendo a existir. Em você, aprendendo a ser eu. Em nós, criando motivos desnecessários pra você sorrir ainda mais. Quero te abraçar. Enquanto não posso, vou apendendo a conviver com as saudades, e vivo bem. Vou aprendendo a me render aos meus desejos de você comigo. E, mesmo sem esperar nada em troca, vou aprendendo a dizer tudo o que sinto só pra te ver feliz. Estou aprendendo a amar, assim como aprendi a laçar cadarços. Aulas diárias que você me dá sorrindo.

Biri-biri

26 de março de 2011 § 2 Comentários

Festa de criança. Roubar brigadeiro antes do parabéns: biri-biri de meninice. Correr, pular, sorrir, cantar em voz alta no meio da multidão. Lembrar que a rosa existe: biri-biri de saudades! Cachorrinho rolando, sorrindo e brincando, com barriga pra cima, só pra ser felicidade aquela hora: biri-biri como se deve. Receber um “eu te amo!” sincero e sem cobrança: sorte de biri-biri sincero! E eu amo você!

Te abraçar e ser com você o sorriso maior e mais brilhante: biri-biri de afeto. E tem tão pouca gente que conhece biri-biri! Gente que passa dias e noites e não pode se lembrar de coisas simples que fazem deixar de ser adulto e reviver biri-biri. Biri-biri é coisa especial de gente que ama e é feliz como se deve. Coisa de rosa, menina baloneira, que me empresta seu balão por ainda não querer andar no meu.

Corre comigo! Brinca de coisas infantis! Faz voz de criança, me chama e se lembra de coisa nova e simples, pra viver de abraços-biri-biri pra sempre. Me deixa te convidar pra um sorvete só pra lambuzar o seu nariz. Ouve o que te diz o cachorrinho: brinque e pronto! Ainda que tenha já crescido, você é biri-biri como se deve, igual naquela primeira infância. Do jeito que a memória do seu sorriso me faz lembrar. Biri-biri de ter você por perto. Saudadezinha da menina-rosa que me ensinou o que é biri-biri.

Prisioneiro de saudades de você

26 de março de 2011 § 1 comentário

Pequetita, moleca-ripilica. Não tendo como explicar, direcionar, resta agradecer a permanência do seu mimo. Sendo assim tão difícil entender, vale mesmo é se jogar, em abraço que demora a vir, em encontro impedido de acontecer. E, mesmo que haja mais questões que assim fazem essa relação, pode estar certa de uma coisa: também quer esse abraço! Também deseja afagar outro cuidado que podes ter certeza, estará sempre por ali.

Baloneira rosa de perfume mais doce e sorriso tímido. Tens a sutileza que faz desse espaço o palco de um abraço forte mesmo à distância. Carícias, cuidados, afetos, tudo feito com o maior respeito às suas decisões. E, a despeito de qualquer outra possibilidade, façamos um brinde ao carinho que nos une e nos afaga, e às decisões que foram tomadas por terceiro já excluído. Não haverá discussão de mérito, não haverá cobrança ou ministério que tenha o intuito de te fazer desejar como o faço. Mas haverá sempre saudade.

Parece mesmo ser difícil manter-se longe da sina bela e curiosa de estar sempre ligado a esse afeto-miudeza. Obstinado à sua concordância, estarei sempre com o mais quente amor em mim, só pra te fazer sorrir mais alto. Pra te fazer feliz de sempre. Te fazer pensar de novo. Fazer com que você se lembre.

We also can

20 de março de 2011 § 1 comentário

Eu não quero cantar um hino novo. Quero um novo motivo para cantar o mesmo hino rebuscado dos séculos passados. Liberdade, respeito, dignidade e ambição sem cor, como minha pele parda e indefinida. Perseverança em velhos valores que não nos cabem e velhas posturas que não nos contemplam não podem ser nossa bandeira. Seja bem-vinda nação-cinqüenta-estrelas! As nossas vinte e sete e o nosso sol de liberdade lhes saúdam com respeito, aquele de iguais. Conseguimos conquistas importantes, assim como você.

You can. Está provado, e parabéns já atrasado. But we also can! E verá, se é que já não vê. Sociólogo-presidente; metalúrgico-presidente; revolucionária-presidente – quantos exemplos querer mais? Este aqui é um país de diferenças, de presenças, de paz e de convívio! Devem, aprender conosco: a convivência pacífica leva ao respeito das nações, mesmo que não imediato. Orientais, árabes, europeus, americanos, índios latinos, africanos e nativos, nesta terra verde-diversa são aqui na vastidão, todos irmãos, povo e perspectiva. Caraibagem brasileira: antropofagia pura.

Podemos, em português, ganhar o mundo, abraçar amigos e vencer o medo que em inglês bate ainda em algumams portas. Crescer enquanto economia, na medida em que nosso povo também cresce, vence e ganha motivos pra cantar vem sendo lição de casa. Senhor Obama, seja sincero, não há lugar em que um “nós podemos” faça mais sentido. Então, não faça como seus antecessores, e deixe de ficar sentado. Aproxime-se dessas nações de outras línguas e religiões, elas podem em árabe, russo, chinês, e em muitas outras línguas. Nesta casa-Brasil, somos irmãos, todos iguais. Diversidade surpreende. Como poderão agir velhos Senhores? Aprender com Caraíbas parece o mais inteligente. Um povo heróico, de brado retumbante e pele avermelhada lhe convida a perceber: Nós também podemos, em um sim de várias línguas!

Pode parecer cansaço

19 de março de 2011 § Deixe um comentário

Excesso de filosofia gera esquizofrenia. Fiquemos nas coisas simples, e o melhor de mim aparece. Preferindo beber água e comer batata doce, fiz-me de caipira. Camisa de flanela, e cantei-me em sertanojo. Fuga de pancadão, sem bicicleta no minhocão, e Ibira nem pensar. Preferindo sono à tarde no sofá, um pouquinho de twitter, café doce da mamãe, cigarro em excesso e contato humano em falta, por escolha. Musiquinha só de leve, pra não haver perda auditiva.

Cabelo todo no chão, barba ainda – e mais definitivamente – na cara, regata e camisa aberta a revelar o que a gravata de trabalho esconde; chinelinho do Tricolor e celular desligado de propósito. Se não for o que eu penso, será o quê? Acredite, é algo mais. Vi dizer que escrever era desabafar, pra mim é mais. Ainda que não possa explicar. Seria o mesmo que explicar Caraibagem. Mas ainda me perguntam. Eu finjo poder dar conta, tento, me frustro e descanso.

Sendo educado com os outros pra finalizar qualquer diálogo bem rápido. Decepcionado com quem sempre mereceu isso de mim – como veio tarde! No aguardo de um abraço sempre amigo, distante e virtual, que, de longe, importa mais que a maioria dos mais próximos. Sei bem, e sei mesmo o que pode parecer. Mas, em algum ponto da pequena argumentação, deixei bem claro: isso é mudança – mais do que bocejo, revolta ou coisa assim. Daquelas que precedem datas importantes. Vai ser diferente, e deliciosamente igual. Avassaladora vida Caraíba de abril e outono que já vem me deixar velho.

Onde estou?

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