Praça e provedor

22 de janeiro de 2011 § 2 Comentários

Fonte e meio de Ziraldo a Antenor. Vício de complemento que esquenta a pele salpicando o desejo por Helena. A fonte de luzes também acompanha piano, saxofone e trombeta. A banda toca e os pombos sujos limpam a calçada cheia de restos de pão sujando-a com o que tentamos esconder em nossas casas. Passa o menino catarrento, o bebê dormindo ao berço e mendigos já conhecidos e quase limpos. De cigarro na mão, um bêbado titubeia até o sol vencer. E dorme. Um senhor de bigode na cara e ouro no pescoço vai e vem com papeizinhos que entrega a fortuitas presenças de momentânea expectativa.

Senhor Pipoqueiro sorri, mesmo que esteja sol demais. E o baleiro, por ser sábado, trouxe também algodão doce e todas aquelas cores que cobrem o enorme poste de magia açucarada. – Picoca doce, mamãe! Picoca doce, mamãe! – e a criança puxa a mãe até o carrinho que quase nem foi montado direito. Ela consegue o que quer, João também consegue! Se quem não chora não mama, quem não tem boca, não chama, mesmo que vá a Roma! O bêbado, a essas horas, já decidiu ficar por ali e desistiu de ir pra cama. Carros vão e carros vem. Ponto de ônibus com fila de sábado de manhã e pouco carro. O jeito é reclamar na prefeitura!

Helena, no azul que a esconde durante o dia, instiga os jovens rapazes de skate da mesma maneira que os senhores de boina no xadrez. À noite, naquele mesmo lugar onde de dia apenas fuma, estará profissional, com saia de couro ou vestido vermelho e curto. Antenor, João, Marcelo, Maurício, o pipoqueiro Jorge e até aqueles jovens aparecem em seu posto. Quase clientela fixa. Certamente dinheiro no bolso. Não que fosse fácil. Mas é papo pra outra hora. De alguém que cuida de crianças, espera o ônibus, come migalhas, vende o corpo, a bala, o algodão ou a pipoca faz-se a praça: lugar de se prover. Isso que é sentimento de união. Bom dia, Helena!

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§ 2 Respostas para Praça e provedor

  • Rafa disse:

    Realmente o texto ficou muito bom, tem “q” lúdico que deixa a leitura divertida, principalmente pelo fato de ser uma descrição de um conjunto de fatos urbanos prosaicos, mas que nos deixa a pensar se foi realmente retirado de sua experiência ou meramente de sua mente fértil… mas sem dúvida deve ter sido a junção de ambos… algo digno dos mestres da pena, que primam pela simplicidade criativa. Até agora um dos favoritos.

  • Anne disse:

    Vc podia escrever um livro tranquilo, neste estilo, eu iria ler rapidinho hehe bjuus

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