Dama Paulicéia

25 de janeiro de 2011 § 2 Comentários

Se alguma coisa acontece em seu coração, imagina com a minha pele de sol escaldante que, instantes depois resfria o horizonte com uma tempestade pesada e breve que faz alagamento. Quase um lugar em que instintos de sobrevivência fazem o limiar entre o moderno e o provinciano. Amizade, imunidade, perplexidade, insanidade de ser, dentre todas as demais, a mais bonita, a mais louca, a mais cheirosa, a mais mimosa, e a mais porca de todas. As outras damas sequer ousam te imitar.

Dama-York, não consegue ser um lugar tão aconchegante como nossos muquifos e nossos restaurantes baratos. Dama-Óquio se modernizou demais, e, de tanta gente que a comporta, intenciona fazer cada um ter seu espaço – tudo errado. Dama-Momma fez-se da gastronomia e do clero – mas, comida boa mesmo só aqui. Dama-do-México, essa é plural – mas tem a marca e a cara indígena que a fundou. Dama-Erlin, outrora já fora dividida por um muro, que manchou sua maquiagem, seu brio e sua imagem. Dama-Ris se fez cultura, poesia, memória e moda, já que a mais nova viria novidade, puerilidade e qualquer coisa diferente e sem idade. Dama Paulicéia por sua vez, esbanja sua cara de acolhida e se forma do abraço sincero de quem está ou de quem chega – seja pra construir, manter ou meramente terminar. É a Dama maior, porque é a dama de todos. Nova e experiente. Simpática aos estrangeiros. Gênese e Apocalipse. Aurora e Luar.

Uma safada e louca trabalhadora noturna que não dorme nem de dia. Casa, remanso, pasto, peito, pele e carícia de quem chega. Brasa, gelo, lenha, água, esfiha e pastel pra quem precisa. Trabalho, estudo, lazer, trânsito, atenção, aprendizado, enchente, represa, calçada e entulhos, de quem lhe mereceu, ou ficou sem opção. Uma jovem senhora, se comparada com as demais. Uma mulher vivida, que, aos 25 de Janeiro, se torna palco de si mesma em seu mais lúdico espetáculo: ser plural. Nunca deixarei de te escrever. E, aonde for, vou te levar, São Paulo.

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Pequenas infrações

24 de janeiro de 2011 § Deixe um comentário

Depois de meia hora do despertar de segunda, a tardia percepção de estar atrasado – seria possível? Café com leite, café puro, cigarro, suco de laranja e pão na chapa – só para não se adiantar o suficiente para chegar no horário. Mesmo depois de parar para sacar no caixa eletrônico e comprar cigarros na padaria não consegui chegar tarde. Estranha experiência de estar certo mesmo desejando estar errado. Não havia mulher, motivo, situação ou desculpa. Havia apenas o deleite de ser um infrator do relógio de ponto – não foi hoje.

Como tinha ainda vinte minutos até meu horário, tomei novamente café, mesmo sem companhia, e conversei comigo mesmo. Esquizofrenia de meu próprio jeito de ter um bom dia. Mais pão na chapa. Estou ficando viciado em manteiga e cafeína. E, de volta ao meu escritório sem paredes, pude perceber: seria um dia daqueles! Típica segunda de manhã fria e tarde quente, que as pessoas insistem, como eu, em tornar um pouco mais difícil. Mesmo assim, véspera dos festejos paulistanos.

Amanhã terá festa e descanso, mas não para mim. Haverá telefone tocando normalmente e emails apenas dos mais indesejados. E umas poucas respostas de pessoas queridas que, persistindo, mantenho por perto. Ainda não é nem hora do almoço, já percorre o devaneio de amanhã. Talvez nem fale de mim mesmo. Uma hora dessas perceberão que os dias, as manhãs, os pudores e os anseios, sempre se repetem. Fazendo de cada um de nós imagens turvas uns dos outros; ou irmãos; ou parceiros – quem sabe até fiéis escudeiros. De qualquer maneira, segunda-feira, aqui, é o dia de pequenas infrações.

Rogério Ceni – um boleiro diferente

22 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Acreditem os demais, faz tempo, mas o camisa 1 de nosso escudo fora um dia mero mortal. Passado, é claro. E, hoje, em tempos modernos, imortalizado está para paulicéios, são paulinos e rivais. Acostumado a quebrar tabus, no gol ou fora dele, és imagem e inspiração de uma nação tricolor que se formou também de suas glórias. E, de Terra-Paulis fazemos motivação, escudo e nome, conforme o mandamento de nosso capitão. Seja pelo hábito de ler que o tornou também hábil com as palavras, seja pelo exemplo de desportividade e empenho, é um boleiro diferente.

Quando haverá outro completo? Talvez os deuses da bola possam prever, mas presumo que será quando voltar em pele de outro Ceni. Ceni-cineasta da bola a fazer de cada lance um efeito especial. Para meninos barrigudos e queimados de sol que moram do lado de cá da ponte, é inspiração que gera transpiração – nossa maneira periférica de compensar o que por dom não nos fora dado de antemão. Correndo atrás.

Deuses da Bola fazem também aniversariam. E, nesta data em que Rogério – o goleiro-leitor-artilheiro celebra sua natividade, cada um terá seu lance pra lembrar – seja gol, seja defesa; talvez por garra talvez por dom. Pela força da presença ou pelo mero motivo de estar vestindo a camisa que ele mesmo desenhou, é figura que ficará sempre na memória, bem como está em nossos campos tanto tempo. Não haverá frase onde caiba a admiração e o respeito. Melhor parar por aqui. Mas, que várias e várias vezes se repita este ode! Nasçam Rogérios, boleiros e mitos para podermos cultuar! Curiosa sensação de gol de placa. Parabéns, Rogério! Mais gols e mais tabus. Mais defesas e mais sucesso. Tenha ainda mais história.  Enfim, nada do que ainda não conheça.

(Em ocasião do 38° aniversário de Rogério Ceni, São Paulino, goleiro-leitor-artilheiro e mito)

Praça e provedor

22 de janeiro de 2011 § 2 Comentários

Fonte e meio de Ziraldo a Antenor. Vício de complemento que esquenta a pele salpicando o desejo por Helena. A fonte de luzes também acompanha piano, saxofone e trombeta. A banda toca e os pombos sujos limpam a calçada cheia de restos de pão sujando-a com o que tentamos esconder em nossas casas. Passa o menino catarrento, o bebê dormindo ao berço e mendigos já conhecidos e quase limpos. De cigarro na mão, um bêbado titubeia até o sol vencer. E dorme. Um senhor de bigode na cara e ouro no pescoço vai e vem com papeizinhos que entrega a fortuitas presenças de momentânea expectativa.

Senhor Pipoqueiro sorri, mesmo que esteja sol demais. E o baleiro, por ser sábado, trouxe também algodão doce e todas aquelas cores que cobrem o enorme poste de magia açucarada. – Picoca doce, mamãe! Picoca doce, mamãe! – e a criança puxa a mãe até o carrinho que quase nem foi montado direito. Ela consegue o que quer, João também consegue! Se quem não chora não mama, quem não tem boca, não chama, mesmo que vá a Roma! O bêbado, a essas horas, já decidiu ficar por ali e desistiu de ir pra cama. Carros vão e carros vem. Ponto de ônibus com fila de sábado de manhã e pouco carro. O jeito é reclamar na prefeitura!

Helena, no azul que a esconde durante o dia, instiga os jovens rapazes de skate da mesma maneira que os senhores de boina no xadrez. À noite, naquele mesmo lugar onde de dia apenas fuma, estará profissional, com saia de couro ou vestido vermelho e curto. Antenor, João, Marcelo, Maurício, o pipoqueiro Jorge e até aqueles jovens aparecem em seu posto. Quase clientela fixa. Certamente dinheiro no bolso. Não que fosse fácil. Mas é papo pra outra hora. De alguém que cuida de crianças, espera o ônibus, come migalhas, vende o corpo, a bala, o algodão ou a pipoca faz-se a praça: lugar de se prover. Isso que é sentimento de união. Bom dia, Helena!

Little Giant – Little King

21 de janeiro de 2011 § 2 Comentários

Um dia presa, outro dia, predador. E preso a pequenas sortes que o dia impõe acabei sendo devir de sacanagem-santidade. Anomalia temática de quase não saber lidar com o seu sucesso, da mesma maneira que não conseguiria conviver com o seu fracasso. Seja normal, desapareça. E olha que não é ninguém para mim. Estou aprendendo a me desvencilhar das raízes, folhas e mesmo dos frutos que este solo tem me dado. Vou-me embora de São Paulo? Duvido muito. Antes, sairei da minha vida – vidinha que levava médio e sujo. Com novos conselheiros, camaradas e novas camas onde deitar com paulicéias ou estrangeiras cumprindo esse levante.

Medida de saúde plantada no desejo de um carinho novo – ou da repetição de um carinho antigo. Sempre, da maneira que é mais própria aos antropófagos, complementando realidade com sonhos E, se de dia construo deleites noturnos, à noite, deleito-me de realidades e devaneios necessários de um sonhador-vivente. Lampião de sorrisos graves. Pequeno e grande na medida em que me abraça e se retém em meu peito. Como poderia querer novamente ser medíocre, se engrandeço a cada sorriso meu jardim de dentes? E mesmo porque se debater contra o que a pele grita? Sendo fiel, fui insano; sendo devasso, menti. E o prazer pode ter surgido mais onde antes tudo era desacordo que onde tudo parecia calmaria.

Rei de um reinado próprio, com outros súditos e reis todos iguais. De uma monarquia de saudades, onde nosso ouro é a realidade da carícia. Pequeno, por ser único, e exclusivo no convívio caraíba. Contraditório, na dialética compulsiva de proximidade e distância que move. Dominador e dominado de um cuidado excessivamente gentil, humilhante e rançoso. Suor que escorre do pensamento até a palma das mãos, tocando a face, o braço e as costas, chamando de nobre o mais humilde e mais entregue aos seus desejos, humilhando capatazes. Uma grandeza comparada. Contenção de tristeza, fome, saudade, calor, furor e pudores. Como é bom restar ao sol.

Look!

14 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Por achar que não me olha, me arrumei de novo, e mais uma vez, e mais uma. Depois de trocar dezessete vezes minhas poucas peças, acabei vestindo a mesma roupa – foi o que me caiu melhor, porque foi a primeira que quis. No estranho pensamento de que não me ouvísseis, cantei os mais lindos versos de Vinícius, as mais belas óperas italianas e a mais sentimental fossa Noel – pra você ficar com dó, me olhando baixinho, sussurrando pena. De olhos e ouvidos fechados, sinto que não terá as minhas alegrias, mas me esforço. De tempos em tempos, lembro de olhar pra dento. Por pior, ou melhor, que possa ser, vejo lá também você: olhos, sorriso, saudade e simpatia.

Percebendo que o sentimento era meu e só meu, te abracei com o meu melhor amplexo: de colo mais sensível e aconchegante, e de carinho mais iminente e gratuito. Sem sabor nem sentimento, fiz meu salgado tocar a sua língua. Antropofagia momentânea. Prato principal da noite-vida-severina que levamos. Cobrindo de afeto o que a pele fez suar naturalmente. Pela tristeza que se faz quase certeza de que não pensa em mim, te liguei, mandei torpedo, troquei e-mails, mandei flores, fotos bombons e ursinhos. A fim de se lembrar. Memória de calcular.

Com medo, e muito, que outro te inebriasse, troquei meu perfume pelo mais caro. E estarei na sua respiração, quando por perto, assim como na sua lembrança, quando distante.  Bonito, de banho tomado, com todo o cuidado que não tenho na escrita breve de um relato quotidiano, percebo em mim uma taquicardia nova – parecida com aquela provocada pelo café. E me lanço, apenas para que me olhe, ou note, ou queira. Num relance assim medido, um “look at me!” desinibido.

Golpe de sorte

12 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Talvez não seja do tipo de se entregar facilmente. Mas também não é hora de achar tudo difícil. De uma hora para outra, é possível que seja tudo diferente. Abominação de uma nova caraibagem, por uma velha e conhecida lembrança de dignidade? Mais surto que saudade – então acho que não. Com certeza é na boa velha e nova ordem de coisas que a caraibagem se faz necessária. Assim como o peito tem a necessidade do abraço e a boca, a necessidade do beijo. O colo, por sua vez, sobrevive da presença do peso pouco que, em meu colo sempre encontra um abrigo seu. Calor de pele.

Umbigo de barriga média, nos meus ares de nunca fazer sentido. Parabéns de noite chuvosa. Choro triste de vitória. Mero ato de dignidade ao se reconhecer pouco e tudo. Para onde foram as raposas, as Calíopes, os rouxinóis e as fadas? Parece que sempre por aí e por aqui. Por aí a espalhar beleza pelo mundo, e, nas memórias fracas e permanentes a ser inspiração de caraibagem e outros surtos de sonhos-realidades-momentâneas. Em terra de temporização imediata, um instante dura a eternidade de um beijo. E nada mais. Uma noite de verão.

Vale mais ver mesas-redondas, programas de culinária, fotos de família e novelas de época. Na estranha lembrança de ser um super-herói desaforado de pequenos contos pessoais e histórias de quotidiano relativamente surdo. Como num trago de cigarro ou de cachaça, guardando cada segredo e cada minuto de sorriso, choro, abraço ou mesmo espasmo. Tremendo de suor e de cansaço. Confusamente perdendo a alma, a cara e o bom nome, para, por uma vez, sorrir após um beijo seu. Que tal morrer também? Até os sapos quereriam meu lugar.

Onde estou?

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