Monólogo de um príncipe sem lembranças

13 de novembro de 2009 § 4 Comentários

 

(com um jornal na mão direita e uma foto dela na mão esquerda, entra o príncipe, vestido de mendigo e com o rosto todo sujo de dormir no chão)

 

PRÍNCIPE:

Você não me admira mais!

Mais não me olha como antes, aqueles faróis que cintilavam de curiosidade…

Seu carinho já não encontra vontade do meu colo, e sua mão já não busca mais a minha.

É estranho? Não! Tenho certeza de que me ama!

Mas não sou mais que um animalzinho amado por sua dona. Minha dona. Você.

Apenas cuidado prestado em busca de uma resposta que nunca poderei dar: eu mudei.

 

E eu não mudei…

 

Talvez devesse eu seguir os sapos, metamorfos,

Um sapo, esse é mais interessante do que eu, com certeza:

Em terra ou na água, sempre tendo um lugar pra onde fugir ou para te levar,

E curiosamente sendo inusitado, híbrido, encantador em seu verde que fustiga,

Repleto de manchas de vida que provocam a curiosidade das memórias que eu não tenho.

 

Se real-beleza, ou se realeza, hoje, para você sou apenas um estorvo. Um ovo. Um frito.

 

Pudera eu ser altivo como as águias. Voar alto! Chamar seus olhos…

Com a distância que mantêm do solo e dos outros, fazem

Parecer sempre inacessíveis e intocáveis. Sem defeitos, sem fraquezas: Sempre fortes.

Sem se envolver, sozinhas, cada vez mais alto.

 

Por ser real fui pouco? Então, peça que seja eu novamente uma fábula – e vá embora!

Por ter me apaixonado, adoeci? Maculei o encanto puro que tinhas por mim?

Diga, por apenas uma vez que eu vou embora. Para não te atrasar.

Peça, apenas, para que eu possa sentir o que é conceder.

Apenas uma vez.

 

Ou um peixe, quem sabe, este simples,

Que imóvel em seu lugar intriga. Que frágil na sua realidade,

Comove. E move,

Em repente silencioso que repete amargo: Continue a nadar! Continue a nadar!

 

Será que, por ser submisso, fiquei pequeno?

Ou por ser nobre envaideci o que era belo?

E por ser todo seu rendi minhas vontades às suas?

Ou apenas por ser humano e não divino, pequei contra a sua divindade?

Tenho tão pouca idade e já tanto sofrimento.

 

Sem história poderia errar como os leões em busca de presa.

Mas que pressa é essa que não te deixa esperar um pouco por mim?

Por que, sendo tão benevolente com os demais tem comigo tanta dureza?

 

Por ser tão voraz, fui sujo.

Por ser antropofágico, me engasguei com sua indiferença.

Você não me admira mais. E eu sei.

 

Você não se encanta mais, como se encantava só de se lembrar,

E nem me lembro com tanta clareza qual foi a última vez que você quis estar comigo…

Não me lembro.

 

Rei, leão, peixe, águia, sapo, eu sonho:

Um sonho no qual comigo você possa ser feliz.

 

Apenas sonho, só mais um conto de fadas.

Onde estou?

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