Dia de Festa

28 de outubro de 2009 § Deixe um comentário

 

Estatuando no espaço minha silhueta sem nuances, posso me parecer com o ambíguo fato de que nunca estou parado. Que parem os atletas, e leiam! Que corram os poetas na sua ignorância filosófica! Que caia a chuva ácida da soberba sobre a grandeza dos mendigos viciados!

 

E, de um motivo simples, mais uma percepção de que nos escapam alguns sinais, algumas estórias não contadas. Entristecendo o feliz fato de estar vivo, mesmo morrendo aos poucos. Um estupefato adubo intelectual, gerido do tédio, provoca os mais variados detritos orais, desde música ruim até conversa chata.

 

Falando apenas do que convém. Pensando apenas no que quer ou gosta. Ouvindo apenas o pouco que é dado a conhecer. Acreditando, assim, que cada um é exatamente aquilo que diz, e que não há mentira alguma no mais simples segredo, de vontade ou esquecimento, guardado nos porões do dia-a-dia.

 

Mesmo de acordo, sendo refém contra-vontade. Piegas e solitário da própria morte coletiva. Boas Festas!

Pólen, Mel e Marmita

18 de outubro de 2009 § 1 comentário

Rainha e abelhuda. Que ferroa com doçura de deixar o zangão zangado. E, do melhor da geléia real, dá a compartilhar aquilo que a cada um compete em sua colméia. Agostiniando o pólen fraco das murchas flores que nos foram acessíveis, por traduções ruins ou meramente por ignorância.

Da demonstração da comunidade, um mel é produzido. Ou, pelo menos é o que se nos faz acreditar (ou quase). Dos favos, de verdade, não se pode perceber mais que a cera disforme que foi regurgitada das pobres operariazinhas que pouco entendem, mas que sabem: o mel é da rainha!

Dona e organizadora das mentes dos pobres insetos filosóficos. Tem bom-senso de distribuir a cada um sua quota de mel, sua marmita. Apenas o que for devido. De dívida de esforços por crescer na colméia neoplatônica abordando o princípio do cristianismo.

Triste de ver descuido; feliz de ver evolução; e entusiasmada da cera quase inútil dos zangões e operários. Quase uma mártir do reino animal. Tornando-nos mais evoluídos enquanto abelhas que qualquer ser humano jamais poderia ser. De pólen fraco, demanda sua graça em mais que doce saber de geléia real, não de inseto, mas de nobreza, sendo para nós Abelha Rainha.

O Sapo Sapato

18 de outubro de 2009 § Deixe um comentário

 
Lá vem o Sapo Sapato! Sorri e corre com seus pés enormes atrás da pererequinha verde-bandeira. Na lagoa, no rio e na proa, sempre sorri de suas piadas sem graça e do seu jeito único de transformar qualquer coisa séria em brincadeira, brejando a realidade corrompida de garrafas pet que descem da vila dos garimpeiros pelo corregozinho criado há pouco mais de um mês.

 

Lá vem o Sapo Sapato. Orgulhoso de seu verde que é mais verde que a grama dos pastos e mais brilhante que o luar refletido no lago. Toma todo dia um banho, e, pasme, lava o pé e passa mousse no topete que encontrou faz quinze dias! E lava porque quer, afinal ninguém mandou… é limpinho o danado!

 

Lá vem o Sapo Sapati-Sapatolá! Com suas botas. “O Sapo-de-Botas” lutador de esgrima e cheio de um charme latino que deixa as pererequinhas e rãzinhas em polvorosa. Canta e ilumina, reverberando sua tenoridade de anfíbio por todos os cantos do mangue. Lustrando seu belo calçamento, para sujá-los em seguida, deixando pegadas à beira-lago.

 

“Lá vem o Sapo Sapato! Lá vem o Sapo Sapato. Lá vem o Sapo Sapati Sapatolá”. Cantando para mostrar que não é triste. Limpinho, para demonstrar que é cuidadoso. Arrumadinho para parecer amado. Coitado. É apenas um Don Juan dos lagos, com sucesso de Vitória-Régia, moscando o almoço para não ter que mergulhar a janta poluída.

Polinômio

4 de outubro de 2009 § 1 comentário

 

Os homens, por definição, são animais que escoram. Alguns dizem que são racionais – que bobagem! Há ainda outros que o tratam como animal político. E, conhecendo um pouco esses bípedes desengonçados, percebi que o homem é, na verdade, uma animal que abraça. Que abraça e fala de perto com seu bafo quente. Normalmente, são apenas pessoas. São seres que cultivam a saliva, o suor e os demais fluidos do próprio corpo.

São seres imaginários de imaginação fértil. Por vezes, são até sedentários que, de sede, passam de mundo em mundo através de outros de mesma espécie. Através de seus líquidos, de seus gemidos mornos e de seu atrito.

São temerários e, quando tomados universalmente são gente. São novamente apenas animais de bafo quente. Mas são frios. Quando em óbito, são presunto. Cheiram a queijo de vez em quando. São animais de peito, com pés de galinha a partir da meia idade. Às vezes são galinha. Outras, são vaquinha. E, quando muito assustadas, são cordeirinho.

São animais multicoloridos que se esquecem. Esquecem sobretudo que são uma mesma espécie, não de iguais, mas de pretos, de brancos, de vermelhos, de amarelos, enfim, de diferentes homens de mesmo valor, o que é bem diferente de ser igual. Por vezes, eles se confundem com sua própria conta bancária, com seus imóveis, seus carros, mas, no fim, são apenas memória e esquecimento de vontades contrárias; das lembranças que pensam ter deixado, ou da saudade que queriam ter causado.

Em grupo são povo. Um ovo de clara gema e suja clara. Mistura de sedes e sensações. Pequenos, são crias, pequerruchos, “os cão”. Adultos são cavalos, cachorros; são trabalhadores, são tristes. E, mesmo correndo atrás, vivem a miséria de um eterno embuste.

Primeiro Vôo de Águia

2 de outubro de 2009 § 1 comentário

Havia dois anos que olhava para baixo. Dois longos anos andando para trás e diminuindo a postura em direção ao peito. Até aquela hora de desfiladeiro. Até ser jogada.

E, com o horizonte, seus olhos se dilataram, com o vento, as penas eriçaram-se e aquelas grandes asas retraídas se envergaram formando um arco, como numa luta contra os céus num sutil balé com o ar e seus pulmões ofegavam. E cada movimento já não lhe respondia apenas como movimento natural, mas era ainda mais forte que podia imaginar, era de dentro, não era apenas comum, era ela mesma.

E, da solidão que sentia junto aos demais, surgiu uma vontade: queria comê-los. Queria devorar cada pedacinho como se fossem milho, alpiste. O mesmo milho que antes comiam juntos e grânjeos. As pupilas parecendo grandes jabuticabas perfuradas de uma vontade insana de alçar cada vez mais altos intentos de bruscos movimentos filarmônicos lhe dava uma tez mais grave que antes.

O responsável-por-aquilo-sitiante fora agora mutilado pela vergonha que a vertigem lhe causava. O irresponsável-amigo-cuidadoso sequer sentiu pena do flagelo que causara por tanto tempo. Dois anos. Nem ao menos quis sentir, por qualquer que fosse o pequeno instante, alegria pela descoberta de sua áquila-amiguinha. Tinha ciúmes, tinha inveja. E, de tanto olhar para baixo como as suas penosas, teve torcicolo de experimentar olhar para cima, e perceber o novo.

Nos rasantes, o bote mortal de alimentar-se do outrora amigo e confidente galináceo. Uma vez rapina, sempre predadora. Uma história em frangalhos.

Onde estou?

Você está atualmente visualizando os arquivos para outubro, 2009 em CONTRADITÓRIO.